Brasil: Neoliberalismo em marcha

 

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Com a proximidade das eleições e os candidatos praticamente definidos, o debate político deveria começar a ganhar corpo na sociedade brasileira, ou ao menos era isso que deveríamos esperar, uma vez que a controversa Copa do mundo se mistura as pautas que ganharam as ruas há um ano atrás. No entanto, as discussões estéreis continuam em torno do que define “esquerda” e “direita” no Brasil, ou ainda, em torno de uma dualidade PT versus PSDB; quando muito se lembram do legislativo e da maioria PMDbista que o compõe.

Para além deste cenário conduzido – na maior parte das vezes por colunistas de tabloides mais que tendenciosos – é preciso, ainda que de forma superficial, fazer uma análise dos rumos políticos e econômicos dos últimos anos no nosso país. Mais especificamente, é preciso ter em mente a entrada do Brasil no cenário do neoliberalismo mundial.

Em 1994, no último ano do governo do então presidente Itamar Franco, foi implementado o Plano Real, e com ele veio o controle da inflação, no entanto, embora o novo plano monetário tenha tido seus méritos, não se pode esquecer que a diminuição da inflação não foi uma exclusividade brasileira; ocorreu na maioria dos países do mundo que registraram uma queda para menos de 10% de suas cargas inflacionárias. Ademais, o Plano Real, fez parte de uma série de mudanças políticas e econômicas no Brasil: uma abertura econômica ampla, as famosas privatizações, a legislação sobre responsabilidade fiscal e as reformas da previdência; todas essas medidas, executadas a partir do governo FHC e continuadas no governo Lula, não estão longe do que reza a cartilha do FMI e do Banco Mundial, bastiões do neoliberalismo mundial.

Não aconteceram mudanças significativas com a chegada do PT ao governo, pelo contrário, o Partido dos Trabalhadores se mostrou um defensor ávido da mesma agenda política e econômica do governo anterior.

Óbvio que não se pode negar um maior investimento na educação, além da inclusão de negros, índios e pobres ao ensino superior etc., mas a maior diferença entre o governo do PSDB e do PT está no processo de estabilização e ampliação da economia sob o jugo neoliberal e um dos seus resultados, o aumento da pobreza e da desigualdade. Enquanto o governo FHC se mostrou insensível a isso, com políticas sociais ridículas, o governo Lula percebeu a necessidade de políticas públicas de caráter social mais intenso, daí chegamos ao que hoje é o Bolsa Família, e os demais programas que o orbitam.

Mas é preciso ser realista, as políticas de caráter social do PT não são mais do que meros paliativos. Nesse sentido, o PT não se mostrou como uma opção à ordem vigente estabelecida, pelo contrário, se mostrou como continuador dela.

Com a bandeira das políticas sociais o Partido dos Trabalhadores obteve um grande trunfo eleitoral, ainda mais em comparação à insensibilidade às questões sociais e as políticas de austeridades comuns do PSDB. Mas mais um vez é preciso manter os pés no chão, se as políticas sociais postas em evidência no governo do PT contribuíram para a diminuição da miséria, da desigualdade e para a expansão da classe trabalhadora (tendo em vista a capacidade de consumo desta), elas não são eficientes em eliminar os problemas, apenas servem para atenuá-los.

O ano eleitoral traz com ele as propostas de reforma, mas quase todos os candidatos que se apresentam não pretendem sacrificar a agenda neoliberal posta. Na verdade querem se mostrar suficientemente confiáveis e dessa forma conseguir o apoio necessário para se elegerem. A manutenção da agenda política e econômica só aumentará as desigualdades já insustentáveis da sociedade brasileira e como sabemos, a exploração sobre o trabalhador continuará aumentando frente o enriquecimento de poucos.

A verdade é que nada que se apresente como reforma será suficiente; pelo contrário, são essas as armas da ordem: reformas inexpressivas, meros paliativos que nada mais fazem do que mascarar a real marcha neoliberal da sociedade brasileira. Diferente do que dizem os intelectuais do PT, não vivemos uma era pós neoliberais, vivemos o mesmo neoliberalismo de antes, inaugurado com a chegada do PSDB no governo. Os avanços do atual governo nas área social, embora importantes, como já dissemos, não resolvem o problema, não importa quanto tempo durem, são apenas engodos que mascaram a manutenção da agenda do Estado.

Se em junho o povo mostrou que pode reconquistar as ruas, precisa agora conquistar sua independência e dizer não ao reformismo, pois não se trata de reformas, se trata de superação. É preciso entender a que veio cada candidato, a escolha de um governo que rompa com a ordem posta, mesmo que esta opção não seja vitoriosa nas eleições, representará, ao menos, o início da conquista da independência do povo, muito embora a conquista definitiva tem que vir das ruas. Mas sobretudo, por hora, será um demonstrativo que o reformismo já não nos convence mais.

Por Glauber M. Florindo

 

Luke Haines e a RAF

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“Nós fazemos os policiais parecerem burros nas fronteiras.” É assim que começa Baader-Meinhof, música de Luke Haines, criada também sob o pseudônimo Baader-Meinhof pro álbum de mesmo nome no ano de 1996. O álbum foi criado como uma espécie de homenagem ao grupo foquista Red Armee Fraktion – Fração do Exército Vermelho.

O RAF foi um grupo nascido na Alemanha Ocidental. Andreas Baader e Ulrike Meinhof eram membros destacados do grupo (daí o nome Baader-Meinhof, utilizado frequentemente pela grande mídia alemã.) Altamente inspirado nos escritos de Mao Tse Tung e na teoria foquista de Che Guevara, que defendia a criação de focos de guerrilha pelo mundo com forma de resistência ao imperialismo americano (um, dois, três, muitos Vietnãs), o grupo utilizava-se de métodos conhecidos hoje (erroneamente) como “terroristas.”

O álbum de 1996 conta a história do grupo. “Rudi disse que devemos ficar espertos, devemos nos armar”, citação da primeira música, é uma referência a Rudi Dutschke, líder do movimento estudantil alemão, baleado por um jovem neonazista em 1968.

 

Em uma pesquisa de 1971, cerca de 80% dos alemães disseram acreditar que a RAF “tinha motivações políticas concretas.” 25% os viam com simpatia, e 10% disseram que, se necessário, forneceriam asilo a um membro da RAF em sua própria casa – isso se traduz em cerca de 8 milhões alemães.

“Meet Me at the Airport”, a segunda música, trata da ida de membros da RAF à Jordânia, para treinamento militar com a FPLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina). “Não era por amor em Deus, não era por cocaína… quando você decidiu me encontrar no aeroporto” – dizem os versos.

Apesar de o que nos ser apresentado sobre a divisão na Alemanha normalmente ser relacionado ao “autoritarismo do governo comunista” e o “horror do muro de Berlim”, o fato é que, na parte Ocidental da Alemanha, apoiada pelos EUA, muitos assentos do governo eram ocupados por ex-membros destacados do Terceiro Reich, e em muitos aeroportos pousavam aviões americanos com destino ao Vietnã.

Robert F. Williams e sua Luger

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Muito se conhece sobre a resistência negra ao racismo presente na sociedade e no governo americano nos anos 60 e 70. Todos conhecem Malcom X, Marthin Luther King e os Panteras Negras. Mas uma figura importantíssima foi deixada de lado: Robert F. Williams.

Robert nasceu em Monroe, no estado da Carolina do Norte, em 1925. Em 1944, entra pros Marines, a divisão de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, por prometerem dar educação gratuita para os alistados – promessa não cumprida para Robert. Alguns anos depois, tornaria-se uma figura de resistência, inspirando heróis como Huey P. Newton, co-fundador dos Panteras Negras.

“Eu voltei pro Sul quando saí do serviço [militar], e as pessoas começaram a fazer manifestações. E uma irmã negra estava sentada num banquinho, tentando comprar um sanduíche e eles [os brancos] apagavam cigarros nos pescoços dos negros, nas costas e batiam neles com correntes na cidade aonde eu morava [Monroe]. E em determinado momento os brancos apareceram e bateram em 18 mulheres, no meio da rua. Mas nós nos levantamos e fizemos algo.” conta Robert.

“Quando ele voltou pra Monroe, ele virou o Presidente da NAACP (National Association for the Advancement of Colored People), e a Corte Suprema tinha proibido a segregação em escolas públicas, então começamos a nos organizar na comunidade, unindo as pessoas” conta Mabel Williams, esposa e companheira de luta de Robert.

A NAACP mantinha uma luta não-violenta em Monroe, normalmente contra a segregação, que era respondida à bala pela Ku Klux Klan. A perseguição aos negros por parte da polícia e a Ku Klux Klan forçou Robert Williams a revisar suas táticas, e no fim dos anos 50 ele cria a Guarda Negra Armada (Black Armed Guard), com cerca de 60 homens determinados a defender a comunidade negra de Monroe de ataques racistas.

 

Robert e alguns dos combatentes da Black Armed Guard.

Robert e alguns dos combatentes da Black Armed Guard.

 

A imprensa da época estimava que a seção de Monroe da Ku Klux Klan tinha cerca de 7.500 membros, enquanto a cidade tinha apenas 12 mil habitantes. No verão de 1957 rondavam rumores de que a KKK planejava um ataque à residência de Albert Perry, físico negro e vice-presidente da NAACP. Robert Williams e seus homens fizeram uma barricada e protegeram a casa, trocando tiros com membros da KKK – que correram, covardemente.

 

Em 1958, Robert Williams ficou conhecido por defender David Simpson, de 7 anos, e James Hanover Thompson, de 9, no caso que ficou conhecido como “Kissing Case.” As duas crianças foram presas por darem um beijo na bochecha de outra criança – essa branca – durante um jogo. Eles foram acusados de molestação e sentenciados a ficar em um reformatório até completarem 21 anos. A acusação causou revolta internacional, e depois de três meses de detenção, David e James foram perdoados pelo governador da Carolina do Norte.

Em 1959, Robert Williams debateu sobre a não-violência com Marthin Luther King, durante a convenção da NAACP. Depois do debate, sua presidência em Monroe foi suspendida por 6 meses, pela discordância de Williams com a liderança nacional. Em 1961 uma grande campanha dos “Freedom Riders” começa em Monroe, contra a segregação em viagens de ônibus interestaduais. Piquetes foram erguidos pela cidade, e protestos aconteciam em quase todos os bairros. Em determinado momento, um casal branco dirigiu-se até o bairro negro da cidade, tentando evitar os protestos na região central. Intimidados pela massa furiosa, foram levados à casa de Robert Williams. Robert disse que podiam ir embora, mas acabou percebendo que não era seguro. Eles foram levados a uma outra casa, até que fosse seguro irem embora. Depois disso, Robert Williams foi acusado de ter sequestrado o casal. O FBI distribuiu cartazes à procura do “sequestrador armado”, assinados pelo Diretor do FBI, J. Edgar Hoover – o mesmo que em alguns anos declararia que o Partido dos Panteras Negras era “a maior ameaça à segurança nacional.”

Perseguido pelo FBI, Robert se exila em Cuba, aonde escreve seu livro “Negros com armas” e trabalha em sua estação de rádio, a Radio Free Dixie, e em seu jornal, The Crusader. Em 1965 sai de Cuba e vai pra China.

 

Mao Tsé-Tung assina versão em inglês do "Livro Vermelho" de Robert F. Williams.

Mao Tsé-Tung assina versão em inglês do “Livro Vermelho” de Robert F. Williams.

 

Morre um ano depois, em 15 de Outubro de 1966.

Na foto, Robert F. Williams segura uma Luger Po8, pistola de fabricação alemã usada na Primeira Guerra, queridinha dos nazistas, ao lado de sua esposa, Mabel Williams - também armada.

Na foto, Robert F. Williams segura uma Luger Po8, pistola de fabricação alemã usada na Primeira Guerra, queridinha dos nazistas na Segunda Guerra, ao lado de sua esposa, Mabel Williams – também armada.

Ucrânia: quem empunhará os punhais?

 

(Foto: Alexander Zemlianichenko/AP)

(Foto: Alexander Zemlianichenko/AP)


Uma rebelião explode em um país da Europa. Um Governo democraticamente eleito é deposto; comunistas são atacados, judeus são perseguidos e pessoas de etnias não pertencentes a tal país são constantemente ameaçadas. A descrição cabe à Alemanha de 1933, mas falo da Ucrânia, em 2014.

Na última sexta-feira, dia 2 de maio, membros do Pravy Sektor (Setor Direita, a versão ucraniana e moderna da SA) arremessaram molotovs contra um prédio de uma Central Sindical de Odessa, no sul da Ucrânia, matando cerca de 40 pessoas – a maior parte asfixiada. A grande mídia ocidental tem tratado o assunto de forma suspeita – diz que “os conflitos” geraram o incêndio. Quando a vítima é pro-Maidan, no entanto, a nomenclatura é clara: “manifestantes pró-russia atacaram[...]”

Fogo em Odessa. Os que conseguiam sair eram espancados. (Foto: Reuters)

Fogo em Odessa. Os que conseguiam sair eram espancados. (Foto: Reuters)

Barack Obama, no Encontro Nacional do Comitê Democrata que aconteceu no fim de fevereiro desse ano, alguns dias depois do golpe em Kiev que derrubara Viktor Yanukovytch, brincou sobre a possibilidade de uma guerra nuclear com a Rússia. Enquanto o Presidente estadounidense falava das diferenças entre Democratas e Republicanos no que se referia a melhorar a vida da classe média, um anônimo gritou da platéia: “Fale-nos do plano de começar uma guerra nuclear com a Rússia!.” O Presidente para, surpreso. Faz um comentário irônico: “Quem é você, aí atrás?” e a platéia – formada majoritariamente por eleitores de Obama – cai na risada e o aplaude. “Eu já sei o que aconteceu! Ele achou que o happy hour começava mais cedo hoje!” – escapou o Presidente, negando-se a tocar na questão ucraniana. O anônimo foi leviano, Obama foi covarde.

Enquanto isso, a situação na Ucrânia se agravava. Em alguns dias a Crimeia se rebelaria contra a junta de Kiev, se integrando à Rússia, o Partido Comunista e seus membros seriam atacados e John Kerry, Secretário de Estado dos EUA, anunciaria um empréstimo de 1 bilhão de dólares ao governo golpista de Kiev.

Três meses depois, a situação não é melhor. Os tanques de Kiev continuam a avançar em Slovyansk, forçando as milícias anti-Kiev a se dirigirem para a região central da cidade. Sinagogas continuam a aparecer pichadas, e apesar da cartilha hitlerista ter começado a ser posta em prática quando o governo de Kiev matou o neonazista Oleksandr Muzychko – um membro destacado da SA ucraniana – o Pravy Sektor continua a crescer, e vai concorrer às próximas eleições (se é que elas virão.)

De fato, afirmar que o auto-proclamado Presidente Interino da Ucrânia Oleksandr Turchynov, Obama e a União Européia têm um projeto de instalação do nazismo é fazer uma acusação leviana. Mas os países europeus e os EUA também não tinham, na década de 30, a pretensão de fazer do nazismo um projeto. Pretendiam usar Hitler como Hitler usou a SA. A Noite dos Punhais ucraniana parece ter sido postergada pela oposição russa; só resta saber quando ela chegará, e quem os empunharão.
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por Pedro Marin

Algo mais a se lembrar

(Foto: Victor Prat/Retoma Brasil)

(Foto: Victor Prat/Retoma Brasil)

A tentativa de reedição da histórica e soturna “Marcha da família com Deus pela Liberdade” foi também um demonstrativo do valor da história, mais especificamente um demonstrativo da falta que o conhecimento da história faz na construção e na preservação da memória.

Pois, por mais difundidos que sejam os horrores da Ditadura, muita das vezes tem-se a impressão de que as pessoas não compreenderam o triste legado que os 20 anos do governo militar no Brasil nos deixou.
Não vou entrar no mérito de dizer o óbvio, todos sabemos, ou, ao menos deveríamos; não houve combate a corrupção, aliás, um governo golpista não teria legitimidade para tanto. Se houve crescimento econômico, cabe a pergunta, para quem?

Houve de fato endividamento e empobrecimento, claro que uma minoria lucrou muito, obviamente às custas do povo. Portanto, nesse sentido o período militar não tem do que se orgulhar. Muito pelo contrário, e aqui entra outro ponto óbvio, deveriam se envergonhar pelos presos políticos, pelos desaparecidos, pelos torturados e pelos mortos etc.
A ditadura militar instaurada no Brasil através de um golpe ao então presidente João Goulart não pode cair no esquecimento. É importante lembrarmos, hoje faz 50 anos do Golpe Militar de 1964.

Mas há algo mais a se lembrar. Há algo que foi roubado do povo brasileiro que precisa ser reconquistado. Em 13 de março de 1964, na Central do Brasil, João Goulart discursou para cerca de 150 mil pessoas. Foram anunciadas um série de reformas de base. Entre elas, a reforma agrária, urbana, fiscal, bancária, educacional e política. Podemos a partir daí nos perguntar: o que perdemos com o Golpe? Para além das reformas anunciadas por Jango cerca de 15 dias antes de ser deposto, perdemos a verdadeira forma de exercer a democracia, perdemos as ruas.

As Jornadas de junho no ano passado foram uma retomada de fôlego, um sinal de vida, pois desde o comício da Central em 1964, o que dizem ser democracia, agoniza e gira em torno de pautas que não são mais que um engodo ao povo.
Não podemos deixar o Golpe Militar de 1964 cair no esquecimento, mas também não podemos esquecer o lugar de direito do povo. Precisamos retomar as pautas das reformas que nos foram roubadas em 1964. Nós, o povo, precisamos reconquistar as ruas.

Por: Glauber M. Florindo

O fim do fim da história

(Charge: Carlos Latuff)

(Charge: Carlos Latuff)

Com o advento da “democracia liberal ocidental”, a história teria encontrado o seu fim. Nada poderia superar o que seria o ápice do desenvolvimento sócio-cultural-econômico. Ledo engano, se o fim da URSS significaria o fim de uma revolução capaz de sucumbir o metabolismo do capital. O próprio capitalismo, baseado na livre concorrência encontraria sua antítese: a formação monopolista, ponto de transição do capitalismo para a sua fase superior, o imperialismo. Portanto, a história não teria acabado, ainda não acabou, e se processa na sua forma mais mesquinha.

O nipo-norte-americano Francis Fukuyama errou, mas Lenin, cujas as estátuas estão sob ameaça na Ucrânia, estava certo. As potências capitalistas querem para elas o mundo. Para tanto, vão de encontro a tudo que questione a “democracia liberal ocidental”. Mesmo que, para isso, o fantasma no nazismo tenha que reencarnar.

Uma agenda vem sendo cumprida há tempos, desde a invasão do Afeganistão, no mínimo, e vem se intensificando no bojo da estagnação que acomete os Estados Unidos e a União Europeia. Países que se colocam como ameaça à mentira do “fim da história”, que denunciam o capitalismo, como a Venezuela, ou, apenas vão de encontro (mesmo que por interesses econômicos e geopolíticos) à empreitada imperialista, são fortemente combatidos. Os Estados Unidos e a União Europeia, ao endossar golpes à democracia da Venezuela e da Ucrânia, estão servindo a este propósito.

Se Maduro vai cair ou vai resistir como por diversas vezes fez Chávez, não sabemos. Já o golpe da extrema direita na Ucrânia, ao que parece, trará consequências imediatas. Por um lado, heróis da luta contra o nazismo na II Guerra têm seus monumentos profanados, sinagogas já aparecem com frases de caráter anti-semita pichadas em suas paredes e lideranças da extrema direita deixam claro que lutarão contra russos, judeus e comunistas. Do outro lado a ameaça direta aos interesses da Rússia (uma imensa estrutura petrolífera construída na Ucrânia, via de exportação de gás e petróleo russos), não só justificam, mas praticamente garantem uma resposta de Moscou.

Não só a democracia está sendo duramente ameaçada, mas a liberdade das nações que não compactuam com o Imperialismo e seus asseclas estão na mira desta soturna empreitada. O capital continua se apropriando de suas crises, ditas “isoladas”. A questão na Ucrânia é um perfeito exemplo: A Rússia, ao se colocar contrária a intervenção dos EUA na Síria, deixou clara a sua posição. Agora, os EUA e a UE dão o troco, se aproveitam da crise Ucraniana para desestabilizar a Rússia, dessa forma a marcha imperialista recobra seu ritmo. Mas a que preço?

Mais do que nunca é preciso estar alerta, a história não acabou, mas acreditar no seu fim, é deixar o caminho aberto para mais do mesmo, para que ela continue na sua pior forma.

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Por Glauber M. Florindo

Ucrânia: golpismo e reação

(Foto: Mstyslav Chernov/WikiCommons)

(Foto: Mstyslav Chernov/WikiCommons)

Sem que sequer um tiro fosse disparado, recebendo flores e tirando fotos com cidadãos que pediam, soldados russos chegaram à Crimeia, república autônoma da Ucrânia, cuja formação étnica é feita 60% de russos, tendo somente 25% ucranianos. As manifestações das últimas semanas e o chamado “EuroMaidan” dividiram o país. O Presidente Viktor Yanukovych foi deposto e agora se encontra na Rússia.

O partido do Presidente interino Oleksandr Turchynov, “Batkivshchyna”, tem relações claras com o partido nazista “Svoboda”. Em Outubro de 2012, por exemplo, os partidos assinaram um documento para a criação da “coalizão de forças democráticas do novo parlamento”, junto com o “UDAR”, partido de centro-direita.

Na manhã de sexta-feira uma sinagoga na Crimeia foi pichada com a frase “morte aos judeus”. No começo da semana, a 400 quilômetros de Kiev, uma sinagoga foi bombardeada.

Diplomacia

Obama condenou a intervenção militar russa na Ucrânia e pediu para que Putin retirasse seus soldados da Crimeia. Nessa semana Obama já tinha afirmado que “qualquer violação da soberania e integridade territorial da Ucrânia seria profundamente desestabilizadora” e avisou a Moscou que “haveriam custos” no caso de uma intervenção na país. Oficiais do Governo Americano afirmaram que os “custos” seriam o cancelamento da viagem de Obama à Rússia e o fim de discussões do campo comercial. De qualquer forma, a preocupação com a soberania de um país por parte de Obama nos parece estranha, considerando que seu país segue ocupando o Afeganistão, fazendo provocações na Península Coreana e apoiando os chamados “rebeldes” da Síria, inclusive sob o disparo de mísseis tendo o país como alvo.

A China, peça importante na geopolítica mundial, disse que os EUA devem cessar com sua “política de Guerra Fria” com a Rússia. Muito provavelmente a China se colocará a favor da Rússia, mesmo que somente no campo diplomático, no caso de um conflito entre os Washington e Moscou. Resta saber qual será a posição de Israel; apoiar Kiev, que se encontra sob influência nazista e ultra-nacionalista, ou apoiar a Rússia.

Guerra

“Senhor Obama, nos fale dos seus planos de começar uma guerra nuclear com a Rússia!” gritou alguém durante um discurso do Presidente estado-unidense no Comitê Nacional Democrata, na última sexta-feira, dia 28. Obama disparou, ironicamente: “Quem é você ai atrás? De que diabos está falando?” A platéia, em sua maioria democrata, caiu no riso. “Veja, o que aconteceu é que ele achou que o Happy Hour era mais cedo hoje!” a platéia aplaude e começa a gritar o nome do Presidente. Era evidente que o anônimo – exagerando ou não – falava da questão ucraniana. Obama se acovardou e fugiu do assunto. Guardemos o vídeo, o futuro dirá se o motivo de riso é o desconhecido que gritou durante o discurso.

Independente da participação militar estado-unidense na Ucrânia, está evidente que haverão conflitos armados em breve – com ou sem a participação dos militares russos. Boa parte da Ucrânia se opõe ao governo golpista. O governo ultra-nacionalista simplesmente não aceitará a existência da Crimeia – território ucraniano autônomo, composto em sua maioria por russos. Sejamos pragmáticos: não é hora de se falar em “respeito à soberania” ou “integridade territorial”, é hora de se combater o nazi-fascismo que se instaura na Ucrânia por meio da força; do golpe. As preocupações não são mais relacionadas às alianças econômicas – apesar de os interesses serem – mas ao cenário catastrófico de guerra instaurado pelos fascistas. Falemos de liberdade, se for o caso: Yanukovych tem ao seu lado a legitimidade da democracia e o respeito à pluralidade étnica e política. O governo de Turchynov, por outro lado, nasceu e se legitima pela violência, e levará, a não ser que derrotado, ao nazi-fascismo. A Rússia perde; quem ganha?

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por Pedro Marin

Acompanhe a questão ucraniana pela página da Frente Brasileira de Solidariedade à Ucrânia: https://www.facebook.com/frentesolidariaucrania