Quem deixou os ratos saírem?

(Foto: Gabriel Jacobsen)

(Foto: Gabriel Jacobsen)

Uma certa direita, extremamente exaltada (ao ponto de parecer piada), radical no liberalismo econômico e feroz no conservadorismo social, há algum tempo tem aparecido no Brasil. Os ratos têm saído de suas tocas. Seu dicionário é limitado; nele aparecem somente palavras como “Cuba”, “PT, “Venezuela”, “black blocs” e “terroristas”. Seu manual ideológico ostenta em seu título “Como não ser um idiota”, e seus messias são comediantes de terceira linha (que, de trás de suas mesas, riem e fazem rir do triste; fazem piada do óbvio), filosoastrólogos em exílio auto-imposto e músicos cujos únicos palcos remanescentes são cavernas – e, como não poderia deixar de ser, o público é constituído de bárbaros sem respeito por qualquer tipo de lei de convivência.

É a elite, que do alto da sua arrogância julga o povo pobre como não-civilizado – mas esparrama tachinhas em ciclovias, avança em pedestres nos sinais fechados do Brasil e agride cadeirantes. O crescimento dessa direita rancorosa é explicado pelos passos dados no último ano; negros em universidades, pobres em aeroportos, empregadas com carteiras de trabalho. Mas essa alta nesse pensamento é também um reflexo do nível de complexidade dele.

Vamos a um exemplo: há algum tempo, Lobão, o cantor cavernoso, declarou em uma comissão que a proibição de “opinar” sob pseudônimos era um ataque à democracia. O cantor se preocupava especificamente com suas campanhas anti-jabá. Lobão lançou mão de um exemplo: hoje, Julinho da Adelaide não seria possível. Para os que não conhecem, Julinho da Adelaide foi um pseudônimo usado por Chico Buarque durante o período militar, para se esquivar da censura prévia. O que Chico fez, obviamente, não seria considerado legal, e poderia custar sua liberdade política ou sua vida – não um contrato com alguma gravadora específica. Mas Lobão ignora isso, e inverte a questão: com a lei de hoje, não poderia existir Julinho da Adelaide – ao invés de: hoje Julinho da Adelaide não precisaria existir.

Mas para os menos instruídos, os mais distraídos, ou os mais interessados (em entender o que lhes interessa) o pensamento de pouca profundidade é genial. É um escândalo: “os que vangloriam Julinho da Adelaide fizeram com que algo semelhante fosse proibido”. O show está feito, os “hipócritas” foram desmascarados; mais soldados no front. Os problemas lógicos são encapuzados pelo show; o mesmo ocorre com o anticomunismo. A falta de provas de determinada blogueira contra Cuba, por exemplo, é encapuzada pela existência da blogueira. É a novidade, ela “desmascarou” a repressão. A mesma lógica é aplicada à Coreia: os esforços em procurar provas que sustentem uma acusação são inversamente compatíveis com o quão absurda a acusação é.

Infelizmente, parte da esquerda se nega ao combate, por achar essa direita demasiadamente ridícula. Tratam o assunto como festa, não como protesto. O fato é que essa lógica rasa, aliada ao fator espetáculo, leva e levará muita gente com ela. É evidente que absurdos como o anarco-capitalismo nunca serão implantados, mas isso não impede que esse discurso motive alguns, e não impede que esses alguns sejam usados.

Na última terça-feira, o discurso raso e o ódio de classe trouxe consequências profundas. Um grupo de três homens teria descido de um carro e tentado obrigar um conhecido blogueiro petista – que, por decorrência de uma doença degenerativa, é cadeirante – a tirar sua camisa vermelha, junto com seu broche e seus adesivos. Depois de recusar, o blogueiro teria tomado um tapa, e os agressores teriam tentado derrubá-lo de sua cadeira, o chacoalhando. Não é porque você é um aleijado comunista que não mereça uma surra para te endireitar”, disseram.

O comportamento é assustador. O ódio político destes teria conseguido ser intenso o suficiente para, não só agredir em maior número, mas agredir também alguém com mobilidade reduzida. Trata-se de um comportamento ganguista e, como sabemos, a derrota de uma gangue se dá quando ela é expulsa, quando ser um membro é motivo de vergonha ou medo.

Hoje, a esquerda (ou o que na visão dos bárbaros é considerado esquerda) é a temerosa. Talvez seja reflexo do fato de nossa ditadura (lembrem-se: altamente liberal na economia, altamente conservadora no social) não ter terminado. Quando os franceses mudaram seu sistema, degolaram os monarcas e destruíram a santa coroa. Aqui, os bárbaros gorilas do século passado seguem ilesos, morrendo como sonhamos morrer: sem preocupações, em uma confortável cama, talvez com os familiares ao redor. A pergunta: temerosos até quando? Pode ser tarde demais…

Evo e o futuro da Bolívia

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No último domingo (14/10/2014), Evo Morales venceu as eleições para presidente do Estado Plurinacional da Bolívia. O primeiro presidente indígena do país agora tem a chance de ser o presidente com mais tempo no cargo, já que vai para o seu terceiro mandato consecutivo.

Na Bolívia o voto é obrigatório para maiores de 18 anos e o país tem uma população maior de 10 milhões de pessoas. Nessas últimas eleições, cerca de 6 milhões compareceram às urnas, incluindo mais de 200 mil bolivianos que residem no exterior e pela primeira vez puderam votar. Evo Morales venceu com cerca de 60% dos votos, cerca de 35 pontos percentuais sobre o segundo colocado, Samuel Medina, que obteve 25% dos votos; o terceiro colocado, Jorge Quiroga, obteve 10%. As eleições na Bolívia contaram com a presença de organismos internacionais como a OEA (Organização dos Estados Americanos), a EU (União Europeia) e a UNASUL (União das Nações Sul-Americanas), para observarem o processo eleitoral do país.

Segundo analistas, Morales se elegeu devido à falta de discursos convincentes por parte de seus adversários, embora a boa fase econômica também teria corroborado para a vitória do socialista. Já a oposição considera que o uso de propaganda pró-Morales na mídia estatal tenha tido um importante papel nessa vitória. Enfim, não faltam justificativas por parte dos críticos ao governo de Evo para a sua vitória. No entanto, a vitória de Evo Morales tem mais a ver com a sua competência como presidente do que com discursos e propagandas, visto que Morales venceu nos departamentos de Tajira, Pandro e Santa Cruz, tradicionais redutos da oposição.

Evo Morales Assumiu a presidência da Bolívia em 2005 e a partir daí vem superando a herança negativa deixada ao país pelo neoliberalismo praticado pelos governos que o antecederam. Morales investiu na infraestrutura do país e o modernizou e ao mesmo tempo reduziu a pobreza com programas de redistribuição de renda e inclusão social.

Em 2008 a Unesco declarou o país livre de analfabetismo; a pobreza do país foi de 38% em 2006 para 20% em 2013, ou seja, cerca de 2 milhões de bolivianos saíram da pobreza extrema no decorrer desse período. Além disso, não se pode ignorar o fato da estimativa de vida ter aumentado, da mortalidade infantil ter diminuído, o IDH ter aumentado juntamente com os números de empregos formais. No que diz respeito a política macroeconômica, em 2006 a dívida pública era de 60 % do PIB, atualmente é de cerca de 33%, sendo que a taxa de crescimento tem aumentado de lá para cá e o PIB per capita dobrou.

A conclusão a se tirar é: Evo Morales mais uma vez se elegeu não pela falta de um discurso convincente no que diz respeito a representação por parte de seu opositores, ou pela propaganda a seu favor nas mídias do estado, ou ainda pelos bons ventos econômicos que sopram por lá. Morales se reelegeu porque fez com que o país avançasse como nunca antes haviam conseguido fazê-lo avançar. Tendo em vista que os principais opositores de Evo Morales são políticos que fizeram parte da anterior era neoliberal sob influência dos EUA, vivida no país até 2006, Morales venceu porque a população boliviana escolheu o caminho do progresso ao retrocesso, preferiu o desafio de se reinventar enquanto nação e se tornar cada vez mais independente, ao invés do caminho do conservadorismo. Enfim, Evo venceu porque deixou de lado velhos discurso e partiu junto com o povo de seu país, para novas práticas.

por Glauber M. Florindo

Junho na urna

(Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

(Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

As ditas Jornadas de junho de 2013 ainda reverberam dissonantes na cabeça de quem considerou pensá-las como indício de uma mudança na forma de pensar e de agir do povo brasileiro, sobretudo, dos que residem nas grandes cidades. As eleições ocorridas no último dia 5 serviriam de termômetro desta mudança, no entanto, vimos a vitória do conservadorismo.

A importância do legislativo no arranjo institucional do Estado, em conjunto com a necessidade de sua renovação, amplamente difundida após junho, ao que parece não deu em nada. O que começou nas ruas, não acabou nas urnas, se fragmentou e se dissolveu em meio a ressignificação de tudo que tem ocorrido no Brasil desde então.

Não vou entrar no mérito dos detalhes, uma vez que não são poucas as análises publicadas acerca da pouca renovação parlamentar, da entrada de elementos conservadores no lugar de parlamentares que defendiam pautas progressistas.

A questão é que, seja qual for o presidente eleito, o Brasil terá sérias dificuldades, no que diz respeito ao legislativo, de debater questões que têm sido recorrentes na sociedade brasileira. Ganham força o debate sobre a redução da maioridade penal, e entram em recessão questões vinculadas às minorias, como criminalização da homofobia, descriminalização e regulamentação do uso da maconha e da prática do aborto. E Continuarão estagnadas questões como a da mobilidade urbana e da reforma agrária, assim como a questão indígena. Enfim, teremos que aguentar o desserviço de Russomanos, Felicianos e Bolsonaros por mais alguns anos.

O medo de ir à frente, por parte da sociedade brasileira, em certa medida, sempre existiu, neste ponto não vejo nenhuma surpresa. No entanto, o que chama a atenção é o fato de que as jornadas de junho em 2013 terem nos indicado exatamente o contrário. De lá pra cá, o que mudou?

Os eventos de junho, simbolizaram o retorno das demandas suspensas pelo Golpe Civil-Militar ocorrido em 1964. Naquela ocasião o Brasil vivia uma democracia ascendente, o povo se manifestava e demandava mudanças, e, no primeiro sinal de que as mudanças começariam a ocorrer, o Golpe.

De 2002 até o hoje o Brasil avançou muito em vários setores, saiu do mapa da fome, conseguiu controlar a inflação mantendo o poder de compra da população, houve uma expansão do acesso ao ensino superior, diminuição do desemprego, aumento do poder de compra do salário mínimo etc. Não podemos cair aqui na armadilha do reformismo, o governo do PT não fez as transformações necessárias para uma sociedade mais igual e, ao mesmo tempo em que medidas “superficiais” foram implementadas (e os efeitos delas devem sim ser comemorados), tivemos um posicionamento econômico um tanto quanto estranho, no que diz respeito ao privilégios dados à iniciativa privada.


Importa aqui, considerarmos que o Brasil em 2013 deu mostras de que voltava às demandas estruturais da nossa sociedade, mas desde julho o que tivemos foi o crescimento de um conservadorismo absurdo. Talvez o que tenha imperado sobre a opinião pública explícita em 2013, tenha sido a opinião publicizada pela grande imprensa (inclui-se aí colunistas nem um pouco éticos, artistas em fim de carreira e até mesmo astrólogos que fingem ser filósofos).

Mas se o Congresso, a partir de 2015, será um dos mais conservadores da história, podemos imaginar que a regulamentação da mídia será uma outra pauta a ser deixada de lado.

Resta contra todo este aparato, um desafio para a esquerda brasileira: a de pensar seu posicionamento em conjunto, talvez a única coisa passível de ser mudada no decorrer dos próximos anos. Mas ao que parece a esquerda se abstém frente ao subserviência do PT ao grande capital. Fica a pergunta, será preciso que mais um ciclo se complete? Mais uma vez teremos o retrocesso antes de que as pautas progressistas ganhem de fato a chance democrática do debate? Mais uma vez a esquerda vai se compadecer e permitir a volta do conservadorismo? A ver…

Duas epidemias

(Ilustração de André Carrillo)

(Ilustração de André Carrillo)

Desde que vi as primeiras notícias sobre ebola, compreendi que o fato dele não ser comentando até atingir americanos é porque até então se tratava de uma epidemia que só trazia riscos e mortes para negros africanos. Surtos de ebola atingiram países da África em 1995, 2000 e 2007, mas foram controlados, o surto atual não só não foi controlado, como atingiu pessoas de outros continentes, já se fala de 4 mil mortos e a “cura” só parece interessar agora, porque outros países correm risco, como cantava Sabotage “Naum sei que mata mais, A fome, o Fuzil ou o Ebola ?”, mas mata quem? Afinal, enquanto só negros morriam parecia que estava ok, para o mundo todo.

Enfim, não dá pra fingir que a forma como os países do mundo olharam pra doença que até então só atingia africanos não é uma prova do racismo institucionalizado, pautado na saúde. Não ter acesso à saúde de qualidade é uma determinante na vida de muitos negros, não só do continente africano mas do Brasil também, quando a mulher negra e pobre aborta e morre, e a branca não, por poder pagar uma clinica e ter acesso a procedimentos seguros, estamos usando a negação ao acesso a um sistema de saúde digno como arma pro genocídio de negros e esse é só um exemplo, porque é possível traçar milhares que afetam em sua maioria negros.

O problema é que o racismo não fica só no campo da vida real, atualmente parece que ele encontrou um novo meio pra se propagar. Mal virou notícia um provável caso de ebola no Brasil (o primeiro exame de confirmação deu negativo), que na internet já se via comentários como:

“Não que eu seja racista, mas eu acho que esse NEGRO que tá com ebola, lá no Rio de Janeiro, deveria ser sacrificado. Vale ressaltar que quando uma atitude é para o beneficio da maioria, não é considerada uma atitude anti-ética.”

O clássico do racismo; primeiro se nega que é racista, depois o show de racismo não para, evidenciando que não se trata de qualquer pessoa, é um negro, que como animal não é morto e sim sacrificado, fortalecendo ainda mais a separação racista criada pelo autor da frase, afinal negro não é gente na cabeça dos racistas. E como sempre a resolução vem a partir da morte, não muito diferente do que é promovido pelo Estado, ou morremos na mão da polícia pacificadora, ou nas cadeias que são as senzalas do século XXI.

É impressionante como as redes sociais vêm sendo invadidas por essas manifestações e como elas são diversas, ao meu ver um novo tipo de epidemia. O vírus que causa o Ebola nunca deixou de existir, e no caso o racismo brasileiro também não. O que temos são inúmeras manifestações, desde páginas com o nome Orgulho de ser Branco, a outras que apoiam a torcedora racista do Grêmio. Ambas com discurso de ódio e racismo, mas que aos olhos do administradores do Facebook, não são nada demais; denúncias são feitas e esses conteúdos continuam existindo.

E não se trata de liberdade de expressão, o que vemos ser permitido é a liberdade de opressão.

Não é à toa que esse é só um dos vários comentários que circulam na rede em relação ao ebola, as pessoas não temem em serem racistas, elas não só o são como expõem isso. Fazendo uma pequena busca pelo twitter podemos encontrar uma página que tem como foco evidenciar o racismo sofrido por empregadas domésticas, em sua maioria mulheres negras (a base da pirâmide social brasileira), que além de lidar com as condições do trabalho cansativas e exploratórias, na maioria das vezes, ainda viram assunto de posts agressivos em redes sociais, feitos pelos seus “Senhores”.

Não me assusta nem um pouco os comentários racistas e outras manifestações de ódio, como o trecho citado acima, e nem me surpreende a forma como Africanos estão sendo tratados, ou melhor dizendo, não tratados por nenhum medicamento, vacina, a ponto de milhares terem morrido até hoje. O que me assusta é saber que é mais fácil encontrar uma cura pro ebola, do que para o racismo do brasileiro, aquele que como um vírus não vemos, mas que mata; não é à toa que morreram proporcionalmente 146,5% mais negros do que brancos no Brasil, em 2012.

Torço pela cura do ebola, torço para que negros não morram mais por conta dessa doença e torço para que o brasileiro assuma seu racismo e parta para desconstrução, porque como está só tende a piorar.

Por Stephanie Ribeiro

Pé na porta

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Desde moleque, quando me descobri negro, eu fiquei curioso e me posicionei, mesmo que às vezes involuntariamente, na questão racial. Ser fruto de uma família negra periférica, cujo pai é um militante de esquerda e a mãe uma admiradora do samba me ajudou muito a atiçar mais minha curiosidade e formou melhor minha posição. Ter bolsa em uma escola particular também. Podem pensar que não, mas meu contato com uma classe média branca, além do choque, me proporcionou diversas visões de uma realidade que até então, na quebra, eu não conseguia ter. Me ajudou a enxergar que, no Brasil, o buraco é bem mais embaixo, e quanto mais descemos, mais enxergamos algo que não é mostrado: a ditadura racial. A palavra pode assustar, então eu vou tentar defini-la, para que não haja dúvida: Nessa ditadura, somos incentivados a não nos assumirmos ou acusarmos qualquer pessoa de cometer o crime de ser negro e, por consequência, tudo que envolve a palavra “negro”, sua cultura e suas tentativas de rebelião contra essa ditadura é reprimido e até demonizado. Desde a televisão não nos retratando até a polícia nos matando, a cultura de submissão e da chamada “cordialidade” entre as raçasnos invisibilizou e não nos contemplou desde a nossa chegada no Brasil. Temos nossa história original apagada e somos forçados a nos ver apenas como coadjuvantes dos senhores de escravos que aqui invadiram, mera força de trabalho que um dia foi necessária, mas que hoje é menos que útil, é irrelevante.

Mas sempre tem os revoltados, e conosco não foi excessão. De quilombolas a sambistas, até o rap, tantos rebeldes batucavam na cozinha enquanto a sinhá não queria e combateram armados ou não todos os empecílios que se jogaram sobre nós; de Marighella a Clementina, passando por Martinho da Vila e Maria Carolina, de cabeça erguida e costas marcadas, nos diziam para lutar sempre, pois esse mundo não era nosso e devíamos construir o nosso a partir das ruínas do deles. A maioria, pelo contrário, aprendeu com o sinhô e nos ensinou a esperar deles as migalhas que nos eram destinadas. Em troca de vidas perdidas e da obediência, tivemos menos educação, menos segurança, respeito, e muitas gerações perdidas pela bala e pela submissão da vontade de poucos sobre condições de vida de muitos. Mas não a nossa.

Somos uma geração de pretos e pretas que chegou com tudo contra a submissão e a ditadura racista que nos mata dia a dia, que se posiciona na frente do debate contra a opressão que sofre, que cansou da relação doentia de sinhô x escravo que os mais doentes chamam de cordialidade, e que sabe que essa cordialidade nada mais é que o nosso eterno direito de permanecer calado e imóvel até segunda ordem, que não vê ofensa racista só como brincadeira, que não vê os números do Genocídio como caso isolado, que não vê cota como esmola e que vê a justiça sempre do lado que não é o nosso. Quando Aranha bateu no braço e gritou “sou negrão”, nós gritamos junto com ele; Quando as pretas pixaram “racista” na fachada da Rede Globo, em resposta ao (mais novo, não primeiro e nem último) programa “Sexo e as Nega”, pixamos junto; Quando o menino, cansado de não ver personagens negros em desenhos e gibis, pintou toda a “Turma da Monica” de marrom, pintamos junto; E sobre as mortes de nossas irmãs e irmãos, 3000 outros irmãos e irmãs nossos ocuparam a Paulista e mais milhares eocuparam outras 15 cidades exigindo o fim dessas mortes.
Uma nova geração de pretos se manifesta agora, com o pé na porta, plural em ideologias mas unificada na luta e pronta pra defender a si e a seus irmãos e irmãs, pois já que a hipocrisia deles acabou, a nossa paciência também, nossa omissão e medo de agir também. Mais uma vez, enquanto for necessário, a fúria negra ressuscita.

- Por Lucas X

Brasil: Neoliberalismo em marcha

 

MODELO-POST

Com a proximidade das eleições e os candidatos praticamente definidos, o debate político deveria começar a ganhar corpo na sociedade brasileira, ou ao menos era isso que deveríamos esperar, uma vez que a controversa Copa do mundo se mistura as pautas que ganharam as ruas há um ano atrás. No entanto, as discussões estéreis continuam em torno do que define “esquerda” e “direita” no Brasil, ou ainda, em torno de uma dualidade PT versus PSDB; quando muito se lembram do legislativo e da maioria PMDbista que o compõe.

Para além deste cenário conduzido – na maior parte das vezes por colunistas de tabloides mais que tendenciosos – é preciso, ainda que de forma superficial, fazer uma análise dos rumos políticos e econômicos dos últimos anos no nosso país. Mais especificamente, é preciso ter em mente a entrada do Brasil no cenário do neoliberalismo mundial.

Em 1994, no último ano do governo do então presidente Itamar Franco, foi implementado o Plano Real, e com ele veio o controle da inflação, no entanto, embora o novo plano monetário tenha tido seus méritos, não se pode esquecer que a diminuição da inflação não foi uma exclusividade brasileira; ocorreu na maioria dos países do mundo que registraram uma queda para menos de 10% de suas cargas inflacionárias. Ademais, o Plano Real, fez parte de uma série de mudanças políticas e econômicas no Brasil: uma abertura econômica ampla, as famosas privatizações, a legislação sobre responsabilidade fiscal e as reformas da previdência; todas essas medidas, executadas a partir do governo FHC e continuadas no governo Lula, não estão longe do que reza a cartilha do FMI e do Banco Mundial, bastiões do neoliberalismo mundial.

Não aconteceram mudanças significativas com a chegada do PT ao governo, pelo contrário, o Partido dos Trabalhadores se mostrou um defensor ávido da mesma agenda política e econômica do governo anterior.

Óbvio que não se pode negar um maior investimento na educação, além da inclusão de negros, índios e pobres ao ensino superior etc., mas a maior diferença entre o governo do PSDB e do PT está no processo de estabilização e ampliação da economia sob o jugo neoliberal e um dos seus resultados, o aumento da pobreza e da desigualdade. Enquanto o governo FHC se mostrou insensível a isso, com políticas sociais ridículas, o governo Lula percebeu a necessidade de políticas públicas de caráter social mais intenso, daí chegamos ao que hoje é o Bolsa Família, e os demais programas que o orbitam.

Mas é preciso ser realista, as políticas de caráter social do PT não são mais do que meros paliativos. Nesse sentido, o PT não se mostrou como uma opção à ordem vigente estabelecida, pelo contrário, se mostrou como continuador dela.

Com a bandeira das políticas sociais o Partido dos Trabalhadores obteve um grande trunfo eleitoral, ainda mais em comparação à insensibilidade às questões sociais e as políticas de austeridades comuns do PSDB. Mas mais um vez é preciso manter os pés no chão, se as políticas sociais postas em evidência no governo do PT contribuíram para a diminuição da miséria, da desigualdade e para a expansão da classe trabalhadora (tendo em vista a capacidade de consumo desta), elas não são eficientes em eliminar os problemas, apenas servem para atenuá-los.

O ano eleitoral traz com ele as propostas de reforma, mas quase todos os candidatos que se apresentam não pretendem sacrificar a agenda neoliberal posta. Na verdade querem se mostrar suficientemente confiáveis e dessa forma conseguir o apoio necessário para se elegerem. A manutenção da agenda política e econômica só aumentará as desigualdades já insustentáveis da sociedade brasileira e como sabemos, a exploração sobre o trabalhador continuará aumentando frente o enriquecimento de poucos.

A verdade é que nada que se apresente como reforma será suficiente; pelo contrário, são essas as armas da ordem: reformas inexpressivas, meros paliativos que nada mais fazem do que mascarar a real marcha neoliberal da sociedade brasileira. Diferente do que dizem os intelectuais do PT, não vivemos uma era pós neoliberais, vivemos o mesmo neoliberalismo de antes, inaugurado com a chegada do PSDB no governo. Os avanços do atual governo nas área social, embora importantes, como já dissemos, não resolvem o problema, não importa quanto tempo durem, são apenas engodos que mascaram a manutenção da agenda do Estado.

Se em junho o povo mostrou que pode reconquistar as ruas, precisa agora conquistar sua independência e dizer não ao reformismo, pois não se trata de reformas, se trata de superação. É preciso entender a que veio cada candidato, a escolha de um governo que rompa com a ordem posta, mesmo que esta opção não seja vitoriosa nas eleições, representará, ao menos, o início da conquista da independência do povo, muito embora a conquista definitiva tem que vir das ruas. Mas sobretudo, por hora, será um demonstrativo que o reformismo já não nos convence mais.

Por Glauber M. Florindo

 

Luke Haines e a RAF

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“Nós fazemos os policiais parecerem burros nas fronteiras.” É assim que começa Baader-Meinhof, música de Luke Haines, criada também sob o pseudônimo Baader-Meinhof pro álbum de mesmo nome no ano de 1996. O álbum foi criado como uma espécie de homenagem ao grupo foquista Red Armee Fraktion – Fração do Exército Vermelho.

O RAF foi um grupo nascido na Alemanha Ocidental. Andreas Baader e Ulrike Meinhof eram membros destacados do grupo (daí o nome Baader-Meinhof, utilizado frequentemente pela grande mídia alemã.) Altamente inspirado nos escritos de Mao Tse Tung e na teoria foquista de Che Guevara, que defendia a criação de focos de guerrilha pelo mundo com forma de resistência ao imperialismo americano (um, dois, três, muitos Vietnãs), o grupo utilizava-se de métodos conhecidos hoje (erroneamente) como “terroristas.”

O álbum de 1996 conta a história do grupo. “Rudi disse que devemos ficar espertos, devemos nos armar”, citação da primeira música, é uma referência a Rudi Dutschke, líder do movimento estudantil alemão, baleado por um jovem neonazista em 1968.

 

Em uma pesquisa de 1971, cerca de 80% dos alemães disseram acreditar que a RAF “tinha motivações políticas concretas.” 25% os viam com simpatia, e 10% disseram que, se necessário, forneceriam asilo a um membro da RAF em sua própria casa – isso se traduz em cerca de 8 milhões alemães.

“Meet Me at the Airport”, a segunda música, trata da ida de membros da RAF à Jordânia, para treinamento militar com a FPLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina). “Não era por amor em Deus, não era por cocaína… quando você decidiu me encontrar no aeroporto” – dizem os versos.

Apesar de o que nos ser apresentado sobre a divisão na Alemanha normalmente ser relacionado ao “autoritarismo do governo comunista” e o “horror do muro de Berlim”, o fato é que, na parte Ocidental da Alemanha, apoiada pelos EUA, muitos assentos do governo eram ocupados por ex-membros destacados do Terceiro Reich, e em muitos aeroportos pousavam aviões americanos com destino ao Vietnã.