“Não precisamos recorrer à tortura como a CIA faz”: porta-voz da RPDC rebate acusação dos EUA

(Foto: Reuters)

(Foto: Reuters)

Um porta-voz do Ministério do Exterior da Coreia do Norte afirmou nesse sábado (20) que o país socialista nada tem a ver com o ataque virtual à Sony Pictures feito em novembro, ao contrário do que o o governo americano e o FBI têm anunciado.

O porta-voz também convocou os EUA a uma investigação conjunta para descobrir quem foram os responsáveis pelo ataque, mas alertou que haveriam sérias consequências se o governo americano não aceitasse a proposta e continuasse a acusar a Coreia pelo ataque. “Nós propomos aos EUA a condução de uma investigação conjunta do caso, dado que Washington está difamando Pyongyang ao espalhar rumores infundados. Nós temos como provar que não temos nada a ver com o caso sem recorrer à tortura, como a CIA faz”, disse o porta-voz à Agência Central de Notícias da Coreia (KCNA).

As acusações foram feitas cerca de um mês depois do site da empresa de cinema ter sido atacado. O suposto motivo do ataque seria o filme “A entrevista”, aonde o Presidente norte-coreano Kim Jong-Un é ridicularizado e assassinado por uma dupla de jornalistas americanos; algo semelhante ao que os jornais ocidentais tem feito em cada nova manchete sobre a Coreia, ao anunciar repetidamente notícias falsas e absurdas sobre o país asiático.

O FBI disse que a conclusão foi alcançada baseada na “análise técnica do malware” que “relevou ligações com outro malware que o FBI sabe que agentes norte coreanos usaram”, e no suposto fato de que o ataque tem similaridades com um ataque feito em março contra bancos sul-coreanos, que o FBI afirma ter sido perpetrado pela Coreia do Norte. A ausência de provas específicas e efetivas, segundo o FBI, se deu pela necessidade de “proteger fontes sensíveis”.

Roel Schouwenberg, pesquisador da empresa de segurança para internet Kapersky Lab, disse à CNN que uma pequena equipe de três “brilhantes programadores” poderia ter feito o ataque. Em outro artigo, o repórter especializado em segurança virtual, Jose Pagliery, afirma que o ataque foi “espantosamente fácil de ser feito”.

A leviana acusação dos EUA já tem seus primeiros reflexos. A ONG “Human Rights Foundation” iniciou uma campanha para enviar, em balões de ar, mídias de dvd do filme “A entrevista”, além de “pendrives cheios de informações” e “panfletos educacionais”. Um texto, publicado no site do canal de notícias americano CNN, aconselha donos de empresas quanto à segurança online, e diz: “Tome cuidado, America corporativa, ou você pode se tornar a próxima Sony”.

Se as acusações são verdadeiras ou não, em breve saberemos. Talvez na próxima semana, com uma descoberta de algum jornalista americano, talvez em alguns anos, com a publicação de algum arquivo confidencial. Enquanto isso, esperaremos deliciados com a ironia que é o Vigilante Global, que espia em todo canto do mundo, se assustar tão facilmente com um ataque “espantosamente fácil de ser feito”.

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Por Pedro Marin

Obama e Raúl: vitória ou derrota?

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(Foto: AP/Franklin Reyes)

No dia de ontem, Cuba e os EUA anunciaram uma retomada das relações diplomáticas entre os países. Com a libertação de Alan Gross e um espião americano cujo nome não foi divulgado por parte de Cuba, e de Gerardo Hernández, Antonio Guerrero e Ramón Labañino por parte dos EUA, Obama e Raúl discursaram.

O discurso do yankee, que anuncia mudanças, tem a retórica dos últimos 60 anos; a questão foi “mudar a tática” porque a antiga “não funcionou”. Apoiar “a sociedade civil cubana” (pode ser lido como “apoiar setores golpistas”) e “dar a liberdade aos cubanos”.

O discurso do ex-barbudo foi mais humilde. Raúl agradeceu aos países que colaboraram para a reaproximação, falou da importância histórica do momento e nos lembrou que, apesar de ter apertado a mão de Obama, os EUA ainda devem muito a Cuba.

Enquanto isso, os apoiadores radicais do Tea Party pediam a deportação de Obama na página oficial do partido, enquanto Cuba festejava. No Brasil, parte da esquerda, feliz com as boas notícias, fechava os olhos para a realidade.

O acordo firmado por Raúl Castro e Barack Obama não garante o fim da guerra dos EUA contra Cuba, nem mesmo o fim do bloqueio. O acordo garantiu a libertação de cubanos que, de qualquer maneira, não deveriam nem ter sido presos. Garantiu alguns charutos cohiba a mais nas malas dos americanos, e uma embaixada em Havana – uma vista melhor para os espiões acompanharem de perto os passos do Partido Comunista de Cuba e financiarem golpistas. O acordo possibilitou a permissão de remessas trimestrais de dinheiro no valor de 2 mil dólares americanos, de indivíduos americanos à Cuba – o que pode gerar alguns problemas na ilha.

É verdade que Cuba se beneficiará em alguma coisa com o acordo. A facilitação da entrada de americanos gerará um bom dinheiro no setor de turismo. Além disso, o acesso a internet pode facilitar o desenvolvimento de diversos setores – apesar de poder servir de arma aos americanos. É verdade também que o simples fato do caminho da diplomacia ter sido reaberto é positivo. Mas é preciso lembrar que não se trata de um acordo com a Bolívia, Venezuela, Uruguai ou Brasil. É um acordo com os EUA, a nação que bombardeou a Líbia, que bombardeia a Síria, que financia terroristas por todo o mundo e que não tem problemas em apoiar golpes de estado, nem mesmo quando apoiado por fascistas; a ver o recente exemplo da Ucrânia.

Cuba ganhou algo. Os EUA, aparentemente, só a libertação de Alan Gross. De fato, ainda é cedo para ter certezas. Mas os americanos sabem negociar, e a conquista do povo cubano no dia de ontem pode facilmente se tornar derrota.

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Por Pedro Marin

O mutilação cultural da Rede Globo

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No dia 7 de dezembro, o programa de entretenimento jornalístico da Rede Globo, o Fantástico, decidiu falar sobre infanticídio. Com a opinião de antropólogos, juristas, indígenas e secretários de segurança pública, o programa decidiu reduzir a conclusão a uma só: a crueldade do índio, o bárbaro sem respeito pela vida.

A introdução, feita pelos apresentadores do programa, dá o tom da reportagem: “Vamos falar de um assunto da maior importância: o direito à vida. Você acha certo matar crianças recém-nascidas por causa de alguma deficiência física?”. Logo após, em tom denunciante, vem a afirmação: “Pois saiba que isso acontece no Brasil e não é crime.”

A SEMIÓTICA DA MUTILAÇÃO

A desrespeitosa reportagem do Fantástico, maquiando-se de imparcial, com chamadas que convidavam o espectador a pensar “até onde é correto intervir”, semioticamente passava outra mensagem. Quando a apresentadora afirma, em tom de denúncia, que a prática de infanticídio por parte de algumas culturas indígenas não é crime no Brasil, depois de te perguntar se você “acha certo ou errado” que se matem crianças recém-nascidas, ela parte (ou faz você partir) de alguns pressupostos:

Primeiro pressuposto: só há a possibilidade de achar certo ou achar errado que se matem crianças recém-nascidas. Não há a possibilidade de o telespectador não concordar com o ato mas, ao mesmo tempo, entender que os indígenas vêem aquela questão de forma diferente, e que, afinal, quem somos nós, invasores do século 16, pra dizer como o índio tem que fazer as coisas ou se deve ou não manter elementos de sua cultura?
Segundo pressuposto: se você não acha um absurdo que os índigenas matem seus próprias filhos, você não dá a devida atenção para o “assunto de extrema importância” que é o direito à vida. Quando a apresentadora continua; “pois saiba que isso acontece no Brasil e não é crime”, fica praticamente evidente que ela esperava que você respondesse negativamente, ou seja, “achasse errado”.

Terceiro pressuposto: toda a discussão quanto ao infanticídio é, somente, a do direito a vida.

Todos esses pontos são importantes na construção da semiótica do genocídio cultural da Globo. Mas há um ponto especialmente importante. O Fantástico, com sua prática jornalística éticamente inabalável, convidou o antropólogo João Pacheco, que falou: “Não se pode atribuir a isso [ao infanticídio nas culturas indígenas] qualquer elemento de crueldade. Se uma pessoa começa já no nascimento conter deformações físicas ou incapacidades muito grandes, você vai ter sempre em si um marginal.”
E, com imagens de um bêbê indígena, vem a resposta do Fantástico: “Na visão do antropólogo, este garoto é um exemplo do que seria um marginal na comunidade indígena. Ele sofre de um problema neurológico.”

João Pacheco falava exatamente o que Raúl Ortiz, um antropólogo entrevistado pela Opera, disse: “A discussão é muito parecida com a do aborto. Para muitos desses grupos literalmente uma criança com deficiência não é uma pessoa propriamente.”

Notem; a criança com deficiência não é uma pessoa propriamente, estando assim à margem daquela comunidade e, portanto, sendo uma marginal. A criança é uma marginal para a comunidade, não “para o antropólogo.” Esse jogo de palavras do Fantástico tem como efeito a total desvalorização da opinião de um especialista, transformando o único personagem na reportagem que nadava contra a corrente em um ser completamente imoral.

ENTREVISTA

Com o fim de esclarecer mais essas questões, falamos com Raúl Ortiz, Antropólogo formado pela Universidad Austral de Chile, mestre e doutorando em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas e membro do Centro de Pesquisa em Etnologia Indígena (CPEI). É necessário ressaltar, como pedido por Raúl, que suas afirmações e análises nessa entrevista estão no âmbito opinativo, e que ele não se classifica como um especialista nesse tema específico.

Revista Opera: Você acredita que a matéria veiculada no Fantástico, da Rede Globo, traz benefícios para o debate e/ou o entendimento da população quanto à questão do infanticídio em algumas culturas indígenas? A reportagem, nos moldes em que foi feita, poderia afetar o público ou o Estado no sentido de aceitar intervenções nas comunidades indígenas?

Raúl Ortiz: Uma contribuição a qualquer debate, mas quando se trata de questões que envolvem olhares diferenciados e práticas contextualizadas em outras realidades culturais, deveriam começar por um exercício profundo de alteridade. Infelizmente, por mais que a matéria intitulada “Tradição indígena faz pais tirarem a vida de crianças com deficiência física”, transmitida no dia 7 de dezembro no programa “Fantástico” da Rede Globo, tenha a pretensão de se mostrar aberta a diversos pontos de vista sobre a prática do chamado infanticídio, acaba não conseguindo transcender um senso comum instalado na sociedade brasileira a respeito de vários temas associados, a saber: os direitos humanos, as diferenças culturais, as moralidades alternativas e as autonomias indígenas.

Tudo começa desde a apresentação da matéria: “Um assunto da maior importância: o direito à vida. Você acha certo matar crianças recém-nascidos por causa de alguma deficiência física?” Sem uma análise comunicacional profunda é possível identificar que esse questionamento inicial está aí não para iniciar um debate, mas para marcar uma clara postura de intolerância e incompreensão perante uma prática que ao invés de contextualizar desde o começo, a reportagem descreve como “o assassinato de bebês que nascem com algum problema grave de saúde”. A mera utilização dos conceitos “infanticídio” e “assassinatos” para se referirem a esta prática marcam, por um lado, uma visão tendenciosa de categorização extremamente etnocêntrica (veremos mais adiante o porquê). Por outro lado, só ajuda a criar um clima alarmista e sensacionalista, diante do qual dificilmente um espectador que desconhece a realidade das povoações indígenas no Brasil poderá se posicionar de um modo diferente do proposto pelos autores da matéria.
Outro elemento que mutila a possibilidade de um debate sério é a tendenciosa associação desta prática com os resultados do mapa da violência no Brasil. Sem um conhecimento direto do instrumento que serve para determinar as dinâmicas da violência, é claro que as cifras lançadas operam para uma definição da violência bastante diferente das que são possíveis encontrar em contextos indígenas onde o contato com os grandes centros urbanos ou mesmo com o Estado brasileiro são distantes ou até inexistentes em um plano formalizado. A opção de não dar continuidade de vida a uma criança recém nascida em um contexto indígena (nos poucos contextos indígenas onde esta prática pode ser documentada) não pode ser comparada com a violência, por exemplo, produzida pelo narcotráfico nas grandes cidades, pois trata-se de situações que são produto de lógicas totalmente diferentes, com consequências para o equilíbrio das respetivas sociedades onde cada uma dessas práticas ocorre, também totalmente diferentes.

Por último, cabe destacar que a reportagem é bastante silenciadora, e até caricaturizadora, da voz dos antropólogos, que, no caso, é representada pelo importante especialista João Pacheco de Oliveira. É assim como a disciplina é apresentada de uma maneira homogênea, como se não existisse divergência interna sobre este e outros assuntos, e quase como se fossemos ferventes e cegos crentes de um relativismo cultural que iria contra os Direitos Humanos Universais. Para a reportagem, os antropólogos (todos) defendemos a não interferência na cultura dos índios, quase como se estivéssemos falando de populações humanas fixadas no tempo, sem processos profundos de transformação intra e interétnicos e ancorados em um fundamentalismo purista que iria além das próprias visões dos índios. Nada mais afastado da realidade da disciplina. Muitos antropólogos trabalham na linha das relações interétnicas e dos processos de transformação das culturas, o que não quer dizer que a diferença cultural não exista ou seja menos relevante para as análises. De fato, acredito que o que o professor Pacheco de Oliveira vem dizendo sobre esse tema é muito mais do que foi editado na matéria do Fantástico, pois o argumento de que “não se pode atribuir a isso [ao chamado infanticídio] qualquer elemento de crueldade” no contexto indígena, não é afirmado apenas pelo fato de que culturalmente a visão sobre a vida e os direitos de viver dessa criança é totalmente diferente (o que seria acudir ao relativismo cultural), senão também porque o autor – em um texto escrito no contexto da Comissão de Assuntos Indígenas da Associação Brasileira de Antropologia¹ – afirma claramente que as campanhas contra essa prática, veiculadas quase sempre por grupos ou ativistas cristãos como o já conhecido caso da Hakani, são justificadas “por causas nobres, valores humanitários e princípios universais”, mas o que assistimos é uma “tentativa de re-edição, em pleno terceiro milênio, dessa farsa que tão somente pode engendrar consequências trágicas”. O argumento do antropólogo é que nos poucos casos registrados de infanticídio indígena “a decisão jamais era tomada com leveza ou leviandade, implicando em sofrimento e tensão, mas vindo a ocorrer sempre com respeito, discussão e responsabilidade”.

Canalizar a “questão indígena” através do sensacionalismo que pode causar o tema do infanticídio para a sociedade brasileira, a partir de um preconceito precário sobre o que deveria – para os brasileiros – representar o mundo indígena no Brasil atual é uma maneira de desviar temáticas fundamentais que sim são problemas declarados desde a perspectiva indígena, e de uma maneira muito mais transversal: suas terras invadidas, a violência e a discriminação que sofrem muitos povos em áreas de profundo contato interétnico (como nas regiões do Sul e do Nordeste do Brasil e nas áreas metropolitanas), o genocídio velado de dirigentes indígenas em contextos de conflito territorial (como em MS com os Guarani-Kaiowá), as altíssimas taxas de suicídio indígena, entre outros temas.

Revista Opera: Existe, hoje, intervenção estatal ou civil nas culturas indígenas, especificamente quanto ao infanticídio?

Raúl Ortiz: Existe sim. Por um lado, é importante compreender que a “intervenção” faz parte de uma lógica humana. O princípio das relações interétnicas está dada pela prática da mútua intervenção. Essa intervenção pode, ou não, trazer benefícios para os grupos relacionados, mas também, quando essas relações são muito assimétricas quanto ao poder de ação, acabam sendo imposições unilaterais, o que socava o equilíbrio da relação interétnica.

No caso consultado, por um lado, estão os órgãos estatais indigenistas, principalmente a FUNAI e a FUNASA, ambos com presença ativa nas comunidades através dos postos. A política indigenista brasileira tem sido clara em garantir que os costumes e tradições indígenas sejam preservados em seus reservas e TIs. No entanto, o espaço do órgão estatal é também um espaço particularizado, dependendo da visão subjetiva que possa ter o(s) funcionário(s) específico(s) em um contexto também específico.

A intervenção mais preocupante tem sido a de ativistas e organizações evangelistas, cuja principal missão tem sido converter os índios ao cristianismo. Cabe mencionar a campanha da ONG brasileira ATINI — Voz pela Vida, cujo trabalho tem apontado a “conscientizar” à sociedade brasileira sobre a aberração que significaria a prática do infanticídio na atualidade. Sem medo de enganar a população brasileira através de produções audiovisuais que mostravam falsas encenações de infanticídio indígena, esta organização conseguiu colocar em debate (muito mal enfocado) a temática da morte de crianças, vendo nisso a possibilidade de se introduzirem nas comunidades indígenas com o apoio moral do povo brasileiro. Hoje em dia, grupos em redes sociais como Facebook também fazem esse trabalho, veiculando ao mesmo tempo campanhas contra o infanticídio indígena e mensagens associados ao benefício da evangelização dos povos indígenas do Brasil.

Revista Opera: A lei protege os indígenas dessas intervenções?

Raúl Ortiz: Em teoria, sim. Na prática, é muito difícil de se controlar. O marco jurídico que protege as populações indígenas no Brasil é muito amplo. Um marco importante é a Constituição Federal de 1988, que indica: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.”

Igualmente, na Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, de 2007, afirma-se que: “[o]s povos indígenas no exercício do seu direito a livre determinação, têm direito à autonomia ou ao auto-governo nas questões relacionadas com seus assuntos internos e locais, assim como os meios para financiar suas funções autônomas.”

Também a Convenção No. 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), afirma que os Estados devem respeitar as identidades sociais e culturais, costumes, tradições e instituições diversas.

Todos esses marcos jurídicos deveriam permitir que se garanta a livre prática dos costumes indígenas, sejam eles coincidentes, ou não, com a doxa política e moral do Estado. Se bem que muitos dos críticos do infanticídio escudam-se na Declaração Universal dos Direitos Humanos, quando em seu artigo 3 afirma que “Todo o homem tem direito à vida”, claramente há não apenas uma imposição categorial do que a própria definição de “vida” significa desde uma perspectiva etnocêntrica, mas também, como indica Pacheco de Oliveira (op cit.), toma-se essa via para dotar os grupos sociais mais favorecidos de um instrumento de afirmação de sua superioridade moral sobre os grupos excluídos ou diferentes.

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Texto e entrevista: Pedro Marin
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¹ OLIVEIRA, João Pacheco. Infanticídio entre as populações indígenas – Campanha humanitária ou renovação do preconceito? Comissão de Assunto Indígena (CAI) da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), conferir: http://www.abant.org.br/ . Acesso 13 de dezembro de 2014.

As comunas venezuelanas

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Cua, Venezuela – Com um trator iraniano e duas caixas de som tocando valsa ao longo de sua plantação de cebolas, Ivan Lora diz estar transformando sua pequena encosta em um bloco de construção do socialismo venezuelano.

“Camaradas”, diz Lora, levando os líderes de uma recém criada comuna em um tour pela sua fazenda de dois acres, “com esta terra e um sistema de irrigação, nós poderíamos colher alimentos durante todo o ano.”

Lora, de 65 anos, sem experiência com o campo, morou na cidade durante toda a sua vida, mas se mudou para a vida rural junto com sua família, quatro anos atrás, em um terreno desapropriado pelo governo de Chávez. Hoje ele é membro de uma das 900 comunas oficialmente registradas, foco principal de uma meta a longo prazo que objetiva a transição da Venezuela rumo a uma sociedade socialista.

As comunas constituiriam o pilar central da vida venezuelana, completas com novas formas de governo, serviços públicos, fazendas e negócios de orientação socialista, que rejeitem o lucro como motivação.

A comuna de Lora fica a duas horas de Caracas, intitulada de “El sueño del Commandante”, e está longe de ser algo semelhante à onda hippie do “flower power” e do amor livre, que varreu os Estados Unidos mas décadas de 60 e 70.

Apesar de Lora possuir uma boa quantidade de terra e um pequeno trator vermelho concedido pelo governo, ele e sua família vivem em um ferro-velho abandonado, ao longo de uma rodovia. Para se locomover, ele conta com a ajuda dos líderes da comuna, que insistem em serem chamados de “porta-vozes do povo”, para evitar a hierarquização.

A maior contribuição de Lora para o socialismo tem sido a sua disposição em vender cebolas, pimentas e pepinos a um custo 60% menor para a comuna, no mercado de fim de semana. Ele distingue estes preços dos demais produtos vendidos por sua família durante a semana.

Apoiadores do esforço comunal dizem que a prática transformará a economia venezuelana, as relações sociais e políticas em algo mais saudável e democrático. Na pior das hipóteses, serve de inspiração para as camadas pobres e marginalizadas trabalherem próximas de seus vizinhos e a assumir o controle do planejamento e da execução dos projetos comunitários.

“Centenas e centenas de camaradas estão dando este passo vital rumo ao socialismo,” diz José Luis Hernan, ex-assessor do Palácio Presidencial, eleito porta-voz da comuna “Sonho do Comandante”, no ano passado.

Céticos do governo venezuelano vêem forças mais cínicas nas comunas, uma mistura de “amor livre” com “conluios políticos”, um jogo de poder de Nicolas Maduro para desviar recursos dos governos locais, controlados pela oposição.

Apesar da queda no preço do petróleo, pilar central da economia venezuelana, Maduro aumentou o incentivo em 62% para as comunas em 2015, chamando-as de “expressão máxima da democracia” e “um exemplo de socialismo puro”.

Este mês ele ordenou aos governos estaduais e municipais a abrirem mão de serviços de coleta de lixo, manutenção de rodovias e construção civil, destinando os afazeres às comunas.

Contadores e tradicionalismos típicos do âmbito contábil raramente acompanham as comunas. Ao invés disso, são substituídos por assembléias populares encarregadas de prezar pela transparência e pelo combate sistêmico à corrupção.

“As comunas são mais democráticas que uma prefeitura, por exemplo, pois as pessoas podem decidir como e onde os recursos serão utilizados,” diz Atenea Jimenez, assessora jurídica do Ministério da Justiça, que atua na definição legislativa das relações entre as comunas e as instituições venezuelanas.

Eventualmente, diz Jimenez, o objetivo é que as comunas substituam o que o governo classifica como “democracia representativa” por um modelo mais participativo, que promova debates e soluções coletivamente. “É por isso que prefeitos e governadores se opõem à este projeto,” ela diz.

Antes de sua morte em março de 2013, Chávez disse que desejaria que a Venezuela possuísse 3.000 comunas até 2019. “La comuna o nada,” costumava dizer.

Um novo Ministério das Comunas agora as mantém em constante registro e vistoria. Críticos dizem que grande parte das listas de comunas oficialmente registradas são fictícias.

Detratores argumentam que as comunas estão se tornando um Estado paralelo, sem sustentação na constituição venezuelana. “Elas são um mecanismo que transforma investimentos públicos em lealdade política,” diz Maria-Pilar García Gaudilla, socióloga venezuelana que estuda as comunas.

“Apesar das pretensões”, ela diz, “as comunas são anti-democráticas na prática, pois venezuelanos que não as consideram socialistas ou não desejam fazer parte deste ideal, acabam morando em comunidades cujo o governo está sendo deixado de lado.”

Cada comuna é ancorada em alguma forma de atividade econômica ou produtiva – uma “empresa socialista” – que fornece emprego e renda. Aqui em Cua, líderes comunitaristas dizem que estão planejando construir um “núcleo de desenvolvimento endógeno” – um conjunto centralmente planejando de escolas, clínicas, workshops e mercados, com a solidariedade como moeda de troca, ao invés da ganância do lucro.

Em outra comuna não distante da plantação de cebolas de Lora, Maribel luta para plantar milho e cuidar de suas quatro crianças. Ela também recebeu uma quantia de terra expropriada pelo governo, realocada de uma favela em Caracas com outras famílias. Apenas duas permaneceram.

Hernandez diz que não pode mais irrigar sua pequena plantação de milho com a água de um poço próximo, pois foi contaminado com resíduos de um projeto de construção de moradias do governo.

Cobras comeram suas galinhas na semama anterior. Ela as abateu com um cano, mas agora sua família não terá mais ovos, e a comida está escasseando.

“Não quero alardear”, ela diz, “mas não podemos sobreviver aqui por conta própria.”

As coisas parecem mais atraentes na comuna urbana no agitado bairro de San José Cotiza. Lá, os membros distribuem botijões de gás em caminhões improvisados da companhia de petróleo estatal. Eles chamam a iniciativa de “Empresa social e comunal Che Guevara” e vestem uniformes novos com bonés vermelhos.

“Nós estamos construindo um negócio cujo o lucro vai diretamente para o povo, e não para um pequeno grupo de burgueses,” diz o líder comunal Vianney Ramos.

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Texto de Nick Miroff, originalmente publicado no site do Washington Post e traduzido por Matheus Machado.

Na Alemanha, tortura inglesa contra comunistas é revelada

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Fotografias de vítimas de um programa secreto de tortura, operado por autoridades britânicas durante os primeiros anos da guerra fria, foram publicadas pela primeira vez após acobertadas por mais de 60 anos.

As imagens mostram homens que sofreram meses de fome, privações, agressões e exposição ao frio extremo em uma série de interrogatórios realizados em centros de tortura do Departamento de Guerra do Reino Unido, na Alemanha Ocidental pós-guerra.

Alguns morreram por inanição ou espancamentos, enquanto soldados britânicos alegaram terem torturado suas vítimas com aparelhos medievais, recuperados de uma prisãoo da Gestapo. Os homens que aparecem nas fotografias não são nazistas, mas suspeitos de serem comunistas, presos em 1946, acusados de “apoiarem a União Soviética”, uma nação aliada dos britânicos até18 meses antes.

Aparentemente, acreditando ser inevitável o conflito direto contra a URSS, o Departamento de Guerra buscou recolher informações sobre o exército soviético e seus métodos de inteligência. Dezenas de mulheres também foram aprisionadas e torturadas, sob a suspeita de serem comunistas ou ex-colaboradoras do regime nazista.

No dia da publicação das fotos, Nick Harvey, porta-voz do Partido Liberal Democrata, disse que é “tarde demais para responsabilizar os torturadores, mas não tarde o suficiente para o Ministério da Defesa reconhecer seus crimes.”

Sherman Caroll, da Fundação Médica para Cuidados de Vítimas de Tortura, disse que as autoridades britânicas deveriam se desculpar e compensar os sobreviventes. “A sugestão de que a Grã-Bretanha não aplicou tortura em seus inimigos durante a Segunda Grande Guerra e no período imediato pós-conflito, considerada uma prática ineficiente, é um mito propagandeado por longas décadas,” ele disse. “O fato de que aconteceu deve ser reconhecido”.

Relatórios mantidos em segredo, agora revelados, também mostram que membros do Labour Party durante o governo do partido de “esquerda”, tentaram esconder os campos de tortura do conhecimento público, sob a fachada de serem apenas “centros de tratamento”.

Quase 60 anos depois, as fotografias, até então guardadas em segredo de Estado, foram reveladas. Quatro meses antes elas foram removidas de um relatório policial que investigava a má conduta de soldados em um destes centros, próximo de Hanover. Pouco tempo depois elas foram liberadas ao The Guardian sob o Ato de Liberdade de Informação.

Não está claro, no entanto, se as pessoas que aparecem nas fotos se recuperaram das agressões. Também não está claro, analisando os documentos agora disponíveis, quando de fato se encerram tais práticas de tortura, comandadas diretamente pelo Estado britânico, na Alemanha pós-guerra ocupada pelos aliados.

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Reportagem de Ian Cobain originalmente publicada no The Guardian, traduzida por Matheus Machado, da Revista Opera.

Carta Capital e o Brasil paralelo

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No último dia 28, o colunista da seção “Economia” do site da Carta Capital, Rui Daher, assinou uma matéria que longe de ter somente um tom “revanchista”, como ele mesmo assume, envenena nossos cérebros com ideias possivelmente mais nocivas que os agrotóxicos usados no campo.

Na matéria, o autor fala da possibilidade da conhecida senadora ruralista Kátia Abreu (PMDB-TO) ser colocada como ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, e a defende, em troca de atacar “a esquerda” que aos olhos dele é retrógrada por contrariar o modelo de agronegócio estabelecido em nosso País.

O argumento central de Rui é um número: o agronegócio foi responsável por 25% do PIB brasileiro em 2013. Imaginem agora que defendêssemos incorporadoras e construtoras que atuam no País, usando como argumento a colaboração destas na economia, e em detrimento disso ignorássemos os despejos, desocupações, e a especulação imobiliária. É isso que Rui faz em seu texto, ao maquiar os problemas apontados pela esquerda com “aspectos positivos” do agronegócio. Talvez o colunista não tenha entendido que as críticas da esquerda não se referem à troca e à produção agrícola ou pecuária, mas ao modelo que nosso País adota em tais trocas e na produção, modelo esse representado por nomes como a senadora Abreu. Talvez o colunista não queira entender.

Na mesma passagem, Draher, em tom pedante, fala sobre como “[O agronegócio] ajudou a sustentar programas sociais e forneceu alimentos às esquerdas e direitas” – diz o colunista especialista em agronegócio, ignorando um fato conhecido: 70% dos alimentos que chegam à mesa do brasileiro são provenientes da agricultura familiar, que não é representada por Kátia Abreu.

O fato é que enquanto Rui fala de números e sobre nosso apego ao passado (ou enquanto presta consultoria a empresas do agronegócio), camponeses pobres e sem-terras seguem sendo assassinados pelo latifúndio. Exemplo disso foi o recente assassinato de Cleomar Rodrigues de Almeida, dirigente da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e Sul da Bahia. Kátia Abreu não os representará, em nenhuma instância. Mas no universo paralelo de Rui Daher e da Carta Capital, a polícia é justa, o campesinato bota a mão no PIB e o pior que pode acontecer no campo é uma safra ruim. E são esses que em tom arrogante querem nos ensinar o que é o agronegócio.

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por Pedro Marin

 

 

Em Ferguson a maconha é branca e faz sangrar

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Algumas noites atrás, enquanto acompanhava as manifestações em Ferguson, caí num artigo do “Conservative Tribune”, site de notícias que ostenta “em defesa da Civilização Ocidental” como slogan. O texto tratava da autópsia feita em Michael Brown, jovem negro de 18 anos baleado seis vezes em setembro por Darren Wilson, um policial branco.

A autópsia em questão teria demonstrado que Michael Brown havia usado maconha algumas horas antes de ser baleado e morto. O fato serviu bem aos porcos do Conservative Tribune, é claro. Com a abertura dos registros do Grande Júri que julgou Darren, soubemos que a maconha também serviu aos que queriam Darren livre.

De acordo com o exame toxicológico feito em Michael, o jovem tinha cerca de 12 nanogramas de tetraidrocanabinol (THC) – principal substância psicoativa da maconha – no sangue.

A evidência foi apresentada ao júri, e o procurador-assistente do condado, Kathi Alizadeh, entrevistou o toxicologista do condado sobre as implicações do THC.

Ele disse que a maconha poderia ter tido efeitos alucinógenos. “Tecnicamente falando, quero dizer, você não vê passarinhos bonitos e cobras voadoras ou coisas do tipo, mas você tem uma alteração na percepção dos sentidos”, disse o toxicologista.

Quando perguntado se Michael Brown tinha usado uma grande dose de maconha, o toxicologista respondeu: “Ele era um indivíduo muito grande. Ele pesava cerca de 130 quilos. Para uma concentração de 12 nanogramas em uma pessoa grande, isso mostra uma dose grande. Em uma pessoa menor, digamos de 45 quilos, para conseguir 12 nanogramas não seria difícil. Um baseado poderia facilmente causar isso. Mas quando falamos de uma massa corpórea maior, como acontece com o álcool, pessoas maiores podem beber mais álcool porque eles tem o receptáculo para aguentar.”

A fala pode nos confundir, mas considerando que o THC é o principal elemento psicoativo da maconha, nos parece irrelevante quantos baseados uma pessoa fumou. O relevante é a taxa de THC no sangue, assim como ocorre com o álcool. É exatamente disso que o editor da revista libertária (de direita) Reason, Jacob Sullum, escreve em um artigo:

“Ao confundir as doses com a concentração no sangue, essa desculpa sugere que 12 nanogramas de THC por mililitro fará uma pessoa grande ficar mais louca do que uma pessoa pequena, o que não faz sentido”, diz Sullum. “Se fumar um baseado pode elevar a concentração de THC de uma pessoa de 45 quilos a esse nível, e se uma pessoa de 45 quilos que fuma um baseado não costuma se comportar da maneira que [Darren] Wilson diz que [Michael] Brown se comportou, por que deveríamos acreditar que a maconha ajuda a explicar a razão de Brown estar morto?”

A questão fica no ar. Mas as evidências que foram jogadas ao júri quanto ao fato de Michael Brown ter usado maconha se tornam mais irrelevantes se considerarmos os efeitos da maconha. German Lopez, do site de notícias Vox, tratou do assunto:

“Não há razão para acreditar, baseando-se nas pesquisas e no entendimento científico, que a maconha faria alguém mais violento,” diz Lopez. “ Isso faz sentido para qualquer um que tenha uma vaga noção dos efeitos da maconha. A maconha é comumente conhecida como um sedativo que relaxa quem a usa. Um dos argumentos contra seu uso é, aliás, que ela deixa seus usuários tão sedados que eles ficam preguiçosos e, como resultado, improdutivos.”

A maconha, como vimos, é irrelevante para o caso. Mas não foi irrelevante para o julgamento. As “evidências” jogadas ao ar para o júri podem ter influenciado-o a decidir pela liberdade daquele que fez Michael Brown cair morto no chão.

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Por Pedro Marin